Manifesto II da Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório

O objetivo da humanidade nunca foi trabalhar

Manifesto II da Teoria da Emancipação do Trabalho Obrigatório

No Manifesto I, propus uma pergunta:

E se estivermos discutindo a escala errada?

Hoje proponho um exercício de imaginação.

Imagine que toda a tecnologia do planeta desapareça.

Quanto tempo levaríamos para perceber que precisaríamos trabalhar muito mais apenas para manter o padrão de vida que temos hoje?

Provavelmente poucas horas.

Essa experiência imaginária revela algo curioso.

Quanto mais tecnologia desenvolvemos, menor tende a ser a quantidade de esforço humano necessária para realizar uma mesma atividade.

Agora, observe a direção da história.

À primeira vista, essas invenções parecem não ter nenhuma relação entre si.

Mas talvez compartilhem um mesmo sentido histórico.

São invenções diferentes, criadas por povos diferentes, em épocas diferentes, mas todas parecem apontar para a mesma direção:

Reduzir o esforço humano necessário para realizar uma tarefa.

Durante séculos aprendemos que o progresso tecnológico servia para aumentar a produtividade.

Talvez isso esteja correto, mas apenas parcialmente, porque produtividade talvez nunca tenha sido o fim. Foi o meio.

O resultado concreto sempre foi outro:

Menos esforço humano.

Talvez esse seja um dos padrões mais consistentes da evolução tecnológica.

Se essa interpretação fizer sentido, uma distinção torna-se inevitável.

Precisamos separar duas ideias que tratamos como sinônimos durante milhares de anos:

Trabalho não é a mesma coisa que trabalho obrigatório.

O trabalho continuará existindo.

Continuaremos pesquisando, criando, empreendendo, ensinando, construindo, cuidando, escrevendo e criando arte.

O que poderá desaparecer não é o trabalho.

É a obrigação de trabalhar para sobreviver.

Talvez seja essa a verdadeira novidade da Inteligência Artificial.

Pela primeira vez, uma tecnologia começa a reduzir não apenas o esforço físico ou intelectual, mas pode inaugurar uma era em que sobreviver e trabalhar deixem de ser sinônimos.

Se isso acontecer, estaremos diante de uma mudança muito maior do que uma revolução tecnológica:

Estaremos diante de uma transformação civilizatória.

Nesse cenário, a pergunta deixa de ser:

“Quais profissões desaparecerão?”

E passa a ser:

O que acontecerá quando trabalhar deixar de ser uma obrigação e passar a ser uma escolha?

Essa é a hipótese que pretendo desenvolver nos próximos manifestos.


Sérgio Araújo

Especialista em Futuro do Trabalho e Inteligência Artificial

Professor, pesquisador e autor de Seja Insubstituível

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